Pe. Afonso: Conheça a história do homenageado da 228ª Festa de Setembro

A infância tranquila no campo, no município de Mirandiba-PE, em contato com as plantas e os animais, despertou, no menino Afonso Carvalho, a paixão e o espírito de defesa à natureza que levaria para toda sua caminhada. Trabalhou, dos seis anos aos doze com seus pais, fazendo todo trabalho na fazenda, como agricultor. Plantava milho, mandioca, feijão, cuidava do gado, extraía borracha de seringueira, até que a oportunidade de fazer ainda mais pelas pessoas chegou. Certo dia, um tio, também padre, ofereceu ao pai dos meninos, estudos na cidade de Sertânia, para um dos filhos. Após a recusa dos três irmãos mais velhos, aos 12 anos, aceitou e foi então que começou sua biografia eclesiástica. “Minha história foi diferente de todo mundo, não sonhei ser padre, apenas fui assumindo os ensinamentos que me eram dados, até tornar-me sacerdote”, lembra.

Começou sua jornada na direção do seminário de Caruaru, atuando, também, como professor. Depois passou dois anos no Alto Pajeú, como auxiliar de dois sacerdotes. Com a chegada dos Italianos na cabeça do Pajeú, Dom Francisco transferiu Padre Afonso Carvalho para a Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Serra Talhada. Assumiu, em 1967, como o primeiro vigário até 1984 e logo, o bispo criou a Igreja do Bom Jesus Ressuscitado e o nomeou primeiro pároco até 2008, período em que o reverendo Otaviano Bezerra, o substituiu.

“Sempre assumi as coisas com permanência e perseverança. Atendia as pessoas com carinho. Todos se davam muito bem comigo e assim, tinha o apoio dos movimentos, além do trabalho na liturgia, missa, batizado e casamento, com que mantinha uma linha bem firme sem falhar”, lembra o sacerdote, que em 1989, recebeu do Papa João Paulo II, o título de “Monsenhor Camareiro” do Santo Padre. Devia assinar Mons. Afonso Carvalho Sobrinho. No entanto, sempre escondeu os títulos e honras merecidas e continuou assinando como anteriormente.

Padre Afonso é muito simples. Não faz mídia, nem elogio de si mesmo, ele quer viver no anonimato”, confirma Antônio Rodrigues, professor e escritor que por perceber um vigário atípico, despertou a curiosidade em conhecer um pouco mais de sua história e escreveu o livro Padre Afonso de Carvalho Sobrinho, um homem entre os Carvalhos, o meio ambiente e a igreja, que conta a trajetória do religioso em seus 50 anos de sacerdócio.

“O livro foi escrito em um momento especial, 50 anos de vida sacerdotal. Quando comecei a estudar no seminário, tive contato com o padre e percebi esse jeito diferente de exercer o sacerdócio. Além da religião, ele tem formação psicológica, confessa e é orientador. Assim, mudou a vida de muita gente, melhorando a relação do homem com a natureza”, explica Antônio Rodrigues.

Não é comum um padre, professor, agricultor, e ecologista, voltado à orientação do homem do campo, que criou alguns instrumentos de educação ambiental e toda vida foi dirigido à natureza, morando na periferia de Serra Talhada.

Desde que chegou, em 1967, com muita simplicidade, Padre Afonso construiu a igreja do Bom Jesus, a casa e o salão paroquial, além de Santa Rita, Bernardo Vieira, e assim ele foi gerando uma estrutura religiosa na região, ficava entre 2 a 3 dias em cada comunidade, promoveu missões populares, criou a missa do agricultor, os 10 mandamentos de convivência do homem com a seca e muitas outras ações.

Em Serra Talhada, nas duas paróquias que administrou, bem como os seis meses que ficou na igreja Nossa Senhora da Penha, Padre Afonso Carvalho mostrou-se eficiente e atuante diante de uma cidade em crescimento, engajando-se nas pastorais sociais, ligando a fé ao sofrimento do povo. Participou dos movimentos pela redemocratização do país, ao lado dos trabalhadores rurais, sindicatos, comunidades eclesiais de base, jovens do meio popular, luta pelo travessão em Serra Talhada, atuou na comissão de Justiça e Paz da Diocese, lutou pela indenização justa das terras cobertas pelas águas da barragem de Serrinha, melhoramento do abastecimento da cidade, ajudou o movimento das mulheres que trabalham no campo, do Sertão Central e do Pajeú e muitas colaborações na área social.

Outra grande contribuição se deu em psicologia e parapsicologia, atendendo casos de paranormalidade, orientando as famílias, não só no confessionário, mas, indicando caminhos, a partir das ciências humanas e sociais.

Atuou como professor no Colégio Imaculada Conceição e, principalmente, ecologista, foi defensor ferrenho da natureza, explicando a importância do bioma caatinga e fez o que pôde para preservar a fauna e a flora da fazenda Açude Velho, onde construiu seu mausoléu, numa área preservada há 60 anos, que deu o nome de “Pequeno Santuário da Natureza”. Sua luta pelo meio ambiente atraiu e formou discípulos e admiradores, como Homembom Magalhães, Maria Abigail Francisco Lima, Vanete Almeida, Professores Miguel Leonardo, Sebastião Carvalho, e Alberto Rodrigues de Oliveira, etc. Em 1982 criou a missa do agricultor, contando com a presença, em massa, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Serra Talhada e grande participação dos lavradores de todo o município. Ele sempre aproveitou esta celebração para dirigir a palavra defendendo o umbuzeiro, cajueiro, mandacaru, a fauna e a flora e distribuiu panfletos com dez mandamentos de proteção à natureza, para agricultores de toda a região.

Primeiro, conservar a vegetação nativa do sertão e da caatinga, preservando esse santuário da natureza nessa região do Nordeste; segundo, construção de cisterna de placas e barragem subterrânea; terceiro, construir silos para armazenar alimento para o gado e não deixar perder o criatório da nossa gente; quarto, plantar pinha, uma fruta que nasce em qualquer lugar do sertão e o gado não come, podendo produzir em grandes escalas para exportação e industrialização; quinto, fomentar a cultura do caju; sexto, ampliar a cultura do mamão para o consumo ou uso familiar; sétimo, incentivar a cultura da mandioca; oitavo, plantar mandacaru e palma resistentes a doenças; nono, iniciar a plantação da leucena, um alimento para os animais e décimo, plantar algaroba para alimentar o gado.

Mons. Afonso Carvalho Sobrinho é um altruísta e se doou para que, todos nesta cidade, tenham vida em abundância. Mantendo hábitos saudáveis de alimentação, aproveitava sua pregação para ensinar remédios caseiros, fazendo parte da equipe de terapia alternativa do estado de Pernambuco. “Tem conhecimento de medicina e psicologia e transmite na linguagem do povo a cura pelas plantas ou os problemas que elas trazem. Com o conhecimento do Tupi-guarani, conhece a caatinga, explica o nome de todas as plantas do sertão com seu significado original, o valor, a natureza e a função delas para os sertanejos. Ocupava a maior parte do seu tempo combatendo o fumo, conservando a terra, resolvendo fenômenos misteriosos usando a parapsicologia. É procurado por todo o povo do Pajeú para resolver problemas paranormais e acompanhamento psicológico, bem como por pessoas de outros estados como Paraíba, Ceará e Bahia”, lembra o escritor Antônio Rodrigues.

Ainda em comemoração aos 50 anos de sacerdócio, recebeu o título de Cidadão Serra-talhadense, de autoria dos vereadores Sinézio Rodrigues e Dedinha Inácio, aprovado por todos os demais.

“O título de Cidadão Serra-talhadense se dá a tantas grandes contribuições sociais que Padre Afonso desenvolveu em nosso Município e na região. Através dele, expressamos nossa gratidão ao grande guerreiro e ser humano, homem honrado que fez por merecer esta justa homenagem. Um entusiasta e incentivador do exercício da cidadania, acolhedor daqueles que necessitavam de aconselhamentos, além do confessionário, na área da psicologia, atendendo a cada família que precisava deste amparo. Para nós, é um grande exemplo de fé e de luta”, afirma Sinézio Rodrigues. Apesar dos 81 anos já pesarem sobre sua visão e limitar sua rotina, o padre ainda realiza aconselhamentos psicológicos em sua casa simples e mostra, com orgulho, as fotografias que fez, contando o principal objetivo das imagens. “Sempre tirava as fotos e entregava aos donos para que eles mantivessem aquelas árvores, mostrando a responsabilidade de cada um com a natureza e o quanto devem ser gratos por estarem com indivíduos de vários lugares, chegando a atender até 10 pessoas em um único dia. Mas, explica que “todos esses fenômenos que relatam ser do outro mundo, nada têm a ver, é só fruto do nosso inconsciente, que é 90% da nossa mente, libera força e faz todo esse movimento de assombração, nada mais é do que a liberação da energia””.

 

PARÓQUIA DO BOM JESUS RESSUSCITADO

Convivendo com a Seca

Princípios Fundamentais

1º – Desenvolvimento sustentável, isto é, trabalhar na terra sem destruí-la, conservando-a viva e fértil.

2º – Biodiversidade, isto é, defender toda variedade de vida, vegetal e animal (flora e fauna).

10 Mandamentos

1º – Defender a vegetação (plantas nativas), conservando um santuário da natureza (um pequeno trecho de terra onde nada se tira).

2º – Construir cisternas de placas nas residências e barragens subterrâneas nas propriedades onde for possível, para se ter fruteiras.

3º – Construir cilos, a fim de armazenar alimentos para os animais.

Plantar:

4º – Pinheiras, dar em todo o sertão, será fonte de renda, São Paulo é o grande mercado consumidor.

5º – Cajueiro, onde o terreno for favorável.

6º – Mamoeiro para consumo familiar, exige pouca água.

7º – Mandioca, para consumo animal e humano.

8º – Palma e mandacaru.

9º – Algaroba.

10º – Leucena.

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Rochany Rocha
Rochany Rocha
Jornalista, Assessora de Imprensa e apaixonada pelo Colunismo Social

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